quinta-feira, 9 de junho de 2011

O último texto cronista


Todas as palavras que eu postei neste blog até o dia de hoje foram com o coração, com o meu coração. Agora, a última vez que posto aqui, sinto-me responsável por 9 corações e 18 mãos. Eis que chegou o momento de nos despedirmos de vocês leitores, e aqui eu falo pelo Gustavo, Rafael, Sofia, João, Antonio, Inês, Leandro e Priscila. Eis o último texto do blog 7 cronistas crônicos.

Levei quase meia hora pra começar a escrever. Ainda é triste pra mim esse final. Sei que não é apenas para mim, sei também que não dói tanto assim em todos. Mas vocês mereciam nossas palavras por aqui, por onde tudo começou. Não houve nada de incrível que merecesse justificativas. Apenas desencontros de interesses, motivações e ideais, ou seja, um risco natural de todo e qualquer relacionamento.

Sim, o 7CC foi muito mais do que um espaço literário. Ele foi um local que desenvolveu relacionamentos. Eu comecei nesse blog sem conhecer nenhum dos escritores. E durante esse período, pouco mais de um ano juntos, conheci 5 dos 6 cronistas que iniciaram o blog. Até hoje faço questão de continuar me relacionando com todos eles, pois os considero amigos e não apenas parceiros da blogosfera. Além deles, estreitei contato com vários leitores que nem conheço, mas que tenho muito carinho.

Esse blog foi regado por muitas emoções. Histórias de alegria, de tristeza, de amores, desamores, perdas e ganhos. Vocês participaram com a gente, interagiram, acho que sorriram conosco e devem ter se emocionado também. Nós falamos de assuntos polêmicos, bobos, atuais, atemporais, antigos. Nosso único critério era escrever com o coração. E penso que cumprimos a missão.

Assim, eu gostaria de agradecer a cada um que por aqui passou, que por aqui ficou, que daqui jamais sairá. Vocês nos motivaram, nos fizeram melhores e aqui nós permaneceremos. Este espaço continuará ativo e as palavras registradas permanecerão guardadas nesse baú virtual como fonte de consulta, curiosidade ou quem sabe até inspiração. E quando quiserem voltar, não precisam pedir licença, um de nós sempre o receberá. Por isso, entre, sente e fique à vontade, você é parte desse blog, para sempre 7 cronistas crônicos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Olhares perdidos no retrovisor (fim)

Os olhos amendoados daquela menina eram os seus. A inocência ali percebida já esteve em seus olhos na mais terna infância. Ali, Anita se deu conta do que perdeu. Do que a correria do dia a dia fez com a sua capacidade de enxergar a vida. Tudo sempre com pressa, tudo por um fio, tudo no limite. Anita observava a vida pelo seu retrovisor e não pelo vidro da frente de seu fusca. Anita não entrou na rua Dom João VI como sempre fez para ir trabalhar. Ela fez o retorno e entrou à direita, sentido rua dos camponeses. Poucos metros adiante e lá estava o Hospital Esperança.

O corredor com as paredes beges levou-a até o quarto 304. E lá estava ela, com seus cabelos grisalhos e a pele enrugada pelo caminho do tempo. Dona Nona reconheceu aquele perfume meio cítrico e seus olhos se abriram em sintonia com um belo sorriso. No mesmo instante, Anita lembrou de onde conhecia os olhos amendoados daquela menina do sinal. Eram os de sua avó. Era aquele o olhar um dia perdido no retrovisor. Só que dessa vez, Anita o encarava de frente.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Olhares perdidos no retrovisor (3)

Automaticamente lembrou-se de sua avó doente, que lutava no hospital para sobreviver ao cancro de estômago. Dona Nona sempre foi uma pessoa alegre, diziam que quando jovem parecia muito com Anita. Agora estava inconsciente e raquítica entregue à sorte do serviço público de saúde. “Preciso visitá-la, de hoje não passa”, pensou. Os carros avançaram mais um pouco. Os pingos escorriam debilmente pelo para-brisa. O fusca engasgava a cada novo arranque.

Pelo retrovisor, Anita enxergou duas crianças com sacos pretos de lixo cobrindo-os da chuva. Deviam ter seis ou sete anos, calculou. O menino vinha na frente e andava com uma pequena caixa na mão, detendo-se em todas as janelas. Tentava vender balas e chicletes aos motoristas trancafiados em seus automóveis. A menina surgiu em seguida. Tinha uma particularidade que chamou a atenção de Anita.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Olhos perdidos no retrovisor (2)

Anita fazia o mesmo percurso todas as manhãs. Levava cerca de uma hora a chegar à loja de pronto a vestir, um negócio de família que geria há cerca de quatro anos, quando terminou o curso de marketing na universidade. Já estava imune ao trânsito, às apitadelas e aos piropos matinais. Vivia em Búzios desde que nasceu, o trânsito caótico e os homens sedentos não mais a surpreendiam.

Foi enquanto cantarolava "Chaterton" de Seu Jorge, a tocar nas colunas do carro ao lado, que deteve o olhar na velha sentada da paragem de autocarro. Ou melhor, no reflexo que esta produzia no seu retrovisor. Era uma mulher para lá dos 80 anos, com certeza. Tinha pouco cabelo, todo branco. Pernas rugosas, joelhos secos, pés negros. Trazia consigo apenas um saco verde de serapilheira. A cabeça apoiada sobre os joelhos, não lhe deixava ver as feições. Era como se não tivesse rosto.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Olhares perdidos no retrovisor (1)

Típica segunda-feira de outono. A manhã nublada, um chuva fina, a preguiça de levantar-se da cama e necessidade de trabalhar. Anita bebeu apenas um gole de café extra forte e saiu, como sempre, atrasada. Seu fusca 89 estava com o limpador de para-brisas sem funcionar muito bem. Ela quase abraçava o volante para dirigir. O sinal decrescente marcava seis segundos, não dava mais tempo para continuar.

O trânsito lento, a cidade alagada, o som quebrado. Ar condicionado, naturalmente, nem pensar. Só restava a Anita relaxar e observar o mar a sua direita. Pelo retrovisor, ela percebeu que o céu estava clareando. O que era cinza ficava azul e os primeiros raios de sol apontavam no horizonte do atlântico. O sinal abriu e ela continuou. Mas não por muito tempo.

terça-feira, 10 de maio de 2011

O último profeta (fim)

A profecia que o último profeta poderia conceber seria a vida. Mas essa vida que o seu filho acabara de ganhar, seria, dentro em breve, solitária. A sua missão de salvar o mundo só poderia recomeçar se avistassem nova terra e se concebessem uma irmã ao recém-nascido para, através de um incesto, poder recomeçar a espécie. O recomeço, através do incesto? Através das tentativas vãs do nascimento? (Nome escorreito que se dá ao sexo.) M. decidiu não o fazer.

Conversou com A. sobre o assunto. "Fomos destinados, por Deus, para salvar o mundo, mas começo a acreditar que caímos numa armadilha. Estamos a ficar sem recursos. Temos um filho que representa a esperança, mas esta não existe. Não podemos fazer nada, a não ser esperar. Repara A., olha à tua volta, o negro domina a paisagem, espaçada por pontos de luz e astros rochosos por onde passamos." Com isto, A. percebeu tudo. O botão encarnado foi activado e o satélite precipitava-se para o fim do tempo. Enquanto os três humanos fitavam o infinito do universo (redundância matemática que no espaço não faz sentido), Deus pareceu ter surgido à frente deles, rindo-se. Ilusão colectiva, é certo, mas ilusão que durou o tempo suficiente até o último segundo. No fim, apenas uma explosão sem fogo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O último profeta (7)

Diz-se que os bebés são todos iguais e M. até concordaria com isso não fosse aquele rostinho enrugado e cor de rosa ser sem sombra de dúvidas a versão infantil do homem do seu sonho. M. sabia que era um profeta e que até à data todos os profetas da humanidade tinham sido seres excepcionais, mas naquele momento não podia sentir-se mais que um mero mortal aterrorizado.

A. estendeu-lhe o bebé, embevecida. M. segurou a criança nos braços e aproximou a sua cara à dele. Apesar do seu profundo estado de confusão e medo, não conseguiu evitar uma ponta de ternura – caramba, o último homem e a última mulher tinham concebido um filho, o seu filho! Encostando os lábios à sua pequena orelha perguntou: “O que é que isto quer dizer?”

domingo, 8 de maio de 2011

O último profeta (6)

Havia algo que sempre atormentava M.: “Se realmente sou um profeta, um enviado dos céus, como não pude eu salvar o planeta?” Mais que isso, tentava sem sucesso desvendar seu presságio que agora se materializava num rosto familiar e desconhecido ao mesmo tempo.

Ficou calado durante meses, perambulando pelo pouco espaço de sua morada, armado de raciocínios e lógicas que talvez pudessem lhe dar alguma luz para solver o problema. Dormia muito. Até que um dia despertou com gritos, seguidos de um choro de criança. Correu, encontrou A. deitada com um bebê. Uma criança cuja feição o assustou.