Ele ficou repentinamente vermelho, corou e depois fez aquele tão famosa cara de "já lixei isto tudo". "Não era suposto saberes do livro". Inês, que interpretou aquela frase como uma admissão de culpa, sentiu o sangue gelar nas veias. Ficou pálida, quis sair dali.
Joaquim apressou-se a corrigir. "Tenho estes colegas alemães na minha aula de sociologia. Andreas, du kommst hier bitte?". Um rapaz de cabelo loiro, alto e um tanto desengoncado surgiu vindo da cozinha. "Ele não fala lá muito português". Andreas tinha as mãos sujas de molho de tomate - "ou sangue", pensou Inês, que ainda não estava convencida -, aparentemente estava a cozinhar-lhes um jantar especial. "Hola Inez, prazer conhecer". Ela sorriu, não resistia a um sotaque tosco. Depois do Andreas abandonar a sala, voltou o olhar para Joaquim, aguardando mais esclarecimentos".
"Bom, a verdade e que eu sempre quis trabalhar na ONU e sou um tanto aficcionado por história". Corou novamente, apercebendo-se da imagem de cromo que estava a passar. "Quando conheci estes colegas, aproveitei para fazer todas as perguntas que tinha sobre a herança do nazismo na Alemanha e eles disseram-me que eu nunca iria compreender se não lesse o Mein Kampf. Acabaram por fazer mesmo uma aposta em como eu não seria capaz de o ler. E sabes como é, um homem não se fica..."
Inês relaxou. A explicação era plausível e até demonstrava que Joaquim era uma pessoa interessante. Decidiu aproveitar o "date". Pousou os braços na mesa, beberricou o copo de vinho à sua frente e iniciou conversa. "E então, o que estás a achar do livro?" "Soberbo".
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