quarta-feira, 18 de maio de 2011

Olhares perdidos no retrovisor (fim)

Os olhos amendoados daquela menina eram os seus. A inocência ali percebida já esteve em seus olhos na mais terna infância. Ali, Anita se deu conta do que perdeu. Do que a correria do dia a dia fez com a sua capacidade de enxergar a vida. Tudo sempre com pressa, tudo por um fio, tudo no limite. Anita observava a vida pelo seu retrovisor e não pelo vidro da frente de seu fusca. Anita não entrou na rua Dom João VI como sempre fez para ir trabalhar. Ela fez o retorno e entrou à direita, sentido rua dos camponeses. Poucos metros adiante e lá estava o Hospital Esperança.

O corredor com as paredes beges levou-a até o quarto 304. E lá estava ela, com seus cabelos grisalhos e a pele enrugada pelo caminho do tempo. Dona Nona reconheceu aquele perfume meio cítrico e seus olhos se abriram em sintonia com um belo sorriso. No mesmo instante, Anita lembrou de onde conhecia os olhos amendoados daquela menina do sinal. Eram os de sua avó. Era aquele o olhar um dia perdido no retrovisor. Só que dessa vez, Anita o encarava de frente.

3 participações:

Marisa disse...

lindo! parabéns

Kenny Rosa disse...

Adorei. Acho fantástica a forma como compartilham a escrita no blog. Parabéns!
Kenny Rosa

Anônimo disse...

Cadê as crônicas? Sinto falta das vossas palavras...