Anita fazia o mesmo percurso todas as manhãs. Levava cerca de uma hora a chegar à loja de pronto a vestir, um negócio de família que geria há cerca de quatro anos, quando terminou o curso de marketing na universidade. Já estava imune ao trânsito, às apitadelas e aos piropos matinais. Vivia em Búzios desde que nasceu, o trânsito caótico e os homens sedentos não mais a surpreendiam.
Foi enquanto cantarolava "Chaterton" de Seu Jorge, a tocar nas colunas do carro ao lado, que deteve o olhar na velha sentada da paragem de autocarro. Ou melhor, no reflexo que esta produzia no seu retrovisor. Era uma mulher para lá dos 80 anos, com certeza. Tinha pouco cabelo, todo branco. Pernas rugosas, joelhos secos, pés negros. Trazia consigo apenas um saco verde de serapilheira. A cabeça apoiada sobre os joelhos, não lhe deixava ver as feições. Era como se não tivesse rosto.
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